Casa de Pedro, o Grande, em Tallinn: história e visita

A Casa de Pedro, o Grande, no Parque kadriorg, em Tallinn, Estônia
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Este ano, quando completa 220 anos de existência como museu, a Casa de Pedro, o Grande voltou às minhas memórias e, com ela, uma história que vivi em 2025, durante nossa viagem de férias em Tallinn, capital da Estônia. Se você me conhece, sabe da minha paixão pela Rússia e por alguns de seus personagens históricos. Um deles é Pedro, o Grande, um homem arrojado que fundou São Petersburgo, responsável por reformas e conquistas que transformaram o país. Por isso, quando fiquei sabendo que em Tallinn existia um museu dedicado a ele, minha empolgação cresceu.

O que eu não imaginava é que aquela visita me marcaria para sempre. Com tudo para dar errado, acabou dando tudo muito certo. Mas antes da surpresa, veio a decepção. Nesse texto, eu compartilho a minha experiência com você.

Casa de Pedro o Grande, em Tallinn
A casa pequena e modesta que abrigou Pedro e Catarina

A visita

No dia da visita, acordamos cedo, tomamos nosso café da manhã e seguimos para o Kadriorg, um dos parques mais lindos de Tallinn, a dois quilômetros da Cidade Velha, onde fica a Casa de Pedro, o Grande. Chegamos, meu marido e eu, eufóricos para mais um pedacinho de história sobre o czar russo. Foi quando vimos: o museu estava fechado. E era o nosso último dia em Tallinn. Você pode imaginar meu desespero. Lembro que cheguei na porta da casa, encostei meu rosto, sem esperança, e chorei.

De repente, como num passe de mágica, aquela porta se abriu e uma moça gentil apareceu. Seria um anjo? Pensei comigo. Você pode não acreditar, mas milagres acontecem. Ela abriu a porta e, depois de ouvir o nosso lamento, disse que ia nos receber excepcionalmente. A Casa de Pedro, o Grande, só para nós, acredita?! E com ela ao lado, mostrando tudo pra gente.

O que ver na Casa de Pedro, o Grande

Delicadamente, essa é a palavra, entramos e logo na entrada nos deparamos com alguns quadros e bustos e a escada que dá acesso ao piso superior. Num dos quadros, o imperador Alexandre I da Rússia. Ao seu lado, Mikhail I (Mikhail Fiódorovitch Romanov), avô de Pedro, o Grande e primeiro czar da dinastia Romanov. Junto à janela, o busto de Pedro e Catarina.

Entrada da Casa de Pedro, o Grande
A entrada da casa também é um espaço de exposição.

Sala de estar

A Casa de Pedro, o Grande é pequena e tem poucos cômodos: duas salas logo na entrada e o quarto. Subindo a escada, o sótão, onde funciona uma pequena cozinha e a sala de jantar. Mal entramos na primeira sala e um grande espelho barroco com moldura dourada chamou a atenção. Ao lado dele, o busto de Pedro I e um gabinete-secretária com papéis e documentos, onde ele deve ter trabalhado várias vezes e tomado importantes decisões – imaginei.

A mesa era usada para reuniões nas quais se discutia assuntos relacionados à guerra e, segundo a funcionária do museu, também se fumava. As cadeiras de espaldar alto, além de outra mesa menor e outros móveis, todos da época do casal, ajudavam a criar o ambiente. Uma grande janela deixa entrar o sol e o canto dos passarinhos. Nem acredito que vi e vivi esse momento, voltei no tempo e quase pude ver Pedro e Catarina se movimentando naquele pequeno espaço.

Sobre a mesa, encontramos alguns documentos e, o mais interessante deles, para mim, foi o gabarito do pé de Pedro I, que era um homem com mais de dois metros de altura. Nesse gabarito dá para comparar com outras numerações.

A primeira sala da Casa de Pedro o Grande
Um desses documentos sobre a escrivaninha é a cópia de uma carta de Pedro escrita à mão.
Sala da casa de Pedro, o Grande, em Tallinn
Na sala, um crucifixo na parede, um armário e sobre a mesa, o gabarito do pé de Pedro I.
Gabarito com o tamanho do pé de Pedro, o Grande
Olhando este gabarito, dá para se ter a ideia da altura desse homem tão poderoso.

Documentos

Ao lado do gabarito, havia um texto curioso: o tabaco era duramente reprimido na Rússia desde o século XVII e os fumantes poderiam sofrer punições severas. Mas Pedro mudou essa história. Em 1697, ele autorizou a importação e a comercialização.

Esse documento ainda diz que naquela época, ao tabaco eram atribuídas propriedades medicinais, como por exemplo, alívio para as dores de cabeça e de dente e para o sistema respiratório. Com este histórico, o tabaco era conhecido na Estônia desde 1620 e se tornou popular na segunda metade do século XVII.

Outras observações sobre a sala

Olhando o resto da sala, vimos a lareira, um armário barroco de madeira escura e uma mesa menor com as cadeiras. Outra janela clareia o espaço. Na frente dela, uma embarcação à vela nos lembra a relação de Pedro com a construção naval e o mar. Em São Petersburgo, mais precisamente na Fortaleza de Pedro e Paulo, vemos a réplica de um bote que pertenceu a Pedro, com o qual ele aprendeu princípios navais. Num dos móveis da sala de estar, outra curiosidade: um molde em ferro fundido com a impressão da mão do czar. Foi inevitável comparar com o gabarito do seu pé.

Sala de Estar
O outro lado da sala com outros móveis da época, a mesa menor e o barco
Molde da mão de Pedro I
A mão de Pedro, o Grande foi eternizada num molde

O quarto

Nesse cômodo, vemos a cama de dossel atribuída a Catarina I, com cortinas pesadas. Naturalmente, notamos o contraste entre a imponência da cama e a simplicidade do quarto: pequeno, piso de madeira, poucos móveis. De frente para a cama, outro grande espelho barroco com moldura dourada, entre as imagens de Catarina, à esquerda e, à direita, de Pedro.

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Uma peça que nos chamou a atenção foi uma poltrona grande no canto do quarto. Achamos que era essa a cadeira na qual Pedro I costumava dormir, pois há relatos de que Pedro costumava dormir sentado ou recostado. Mas o museu não tem essa informação documentada. Só uma coisa é certa: a cadeira e outros móveis da casa são da época do czar.

O quarto da Casa de Pedro, o Grande e a cama onde Catarina I dormia
No quarto da casa, a cama imponente de Catarina I é o destaque.
Quarto da Casa de Pedro, o Grande
Sobre a cama, um antigo aquecedor. Com brasas, ele era passado na cama para tirar a umidade e aquecer.

Sala de jantar

Neste pequeno cômodo, apertado, eu diria, está a mesa de jantar que, segundo o próprio museu, é uma rara peça de mobiliário preservada da época de Pedro I. O cômodo foi criado na década de 1730, depois da morte de Pedro e fica sobre a antiga cozinha. A funcionária do museu que nos acompanhava disse que a base da mesa é original. Em torno da mesa, doze cadeiras altas e sobre ela, louças e utensílios como copos, um grande recipiente metálico e um candelabro, que ajudam a recriar uma mesa do século XVIII. Tudo pronto como se ali fosse começar uma refeição.

Sala de Jantar
A sala de jantar da Casa de Pedro, o Grande com a mesa e 12 cadeiras

Cozinha preservada

Esse cômodo da Casa de Pedro, o Grande, ao contrário de alguns ambientes que tiveram adaptações posteriores, está preservado. Trata-se de um dos ambientes mais simples da casa e, talvez por isso, o mais fácil de imaginar em funcionamento. Naquele espaço pequeno está a chamada cozinha com chaminé-manto (mantelkorstnaga): uma estrutura de alvenaria com um espaço na parte de baixo onde se colocava a lenha. Na bancada, algumas panelas. Nas paredes, panelas e utensílios pendurados. O museu garante que são peças da época do casal imperial, mas não necessariamente usadas por ele.

Casa de Pedro o Grande cozinha
Uma cozinha da época de Pedro, o Grande

A história da Casa de Pedro, o Grande

Tudo começou quando a capital da Estônia ainda se chamava Reval. A casa dentro do Parque Kadriorg  pertencia a Hermann von Drenteln e durante a Guerra do Norte, Pedro e Catarina começaram a se hospedar nessa casa. A posição era estratégica. Dali, ele podia observar o mar e o movimento de embarcações durante a guerra. Pouco depois, Drenteln morreu e Pedro comprou a casa da viúva por 1.400 rublos.

A casa construída no século XVII passou a ser a residência do casal, durante suas estadias na cidade. De acordo com a funcionária do museu, o casal utilizou a casa várias vezes entre 1714 e 1723. Sob orientação de Pedro, o Grande, a casa ganhou dois cômodos e um jardim ao lado, onde eram cultivadas flores e ervas.

Pedro gostou tanto da região que foi comprando propriedades na vizinhança. Até que, em 1718, deu início a um projeto grandioso: o Katharinenthal, que significa Vale de Catarina, em homenagem à sua mulher. Tempos depois, o palácio barroco passou a ser chamado Kadriorg e a pequena casa, que fica a poucos metros, começou a ser chamada de velho palácio. O contraste entre as duas construções é enorme.

Depois da morte de Pedro, em 1725, a casa deixou de ter importância e quase desapareceu. Estava abandonada quando em 1804, o imperador Alexandre I visitou Tallinn e tomou conhecimento do seu estado de conservação. Ele logo ordenou a restauração e, em 1806, ela foi aberta ao público como museu.

Vale a pena visitar a Casa de Pedro, o Grande?

Sim. Mesmo para quem não é apaixonado por história, é interessante conhecer um pouco da intimidade de Pedro, czar e imperador da Rússia. Não só dele mas de sua mulher, também. De origem humilde, depois da morte do marido, Catarina chegou ao trono como imperatriz da Rússia. Vai dizer que isso não desperta a curiosidade?

Quanto tempo leva a visita?

Como a casa é pequena, em menos de 40 minutos você percorre todos os cômodos, se tiver uma visita guiada.

Visita à Casa de Pedro, o Grande

A Casa de Pedro, o Grande, fica dentro do Parque Kadriorg, na Mäekalda 2.

  • Bilhete inteiro €5
  • Bilhete com desconto: €4 (estudantes, alunos, professores, idosos e pessoas com capacidade de trabalho reduzida).
  • Bilhete família €12 (para até dois adultos e seus filhos menores de 19 anos de idade).
  • E ainda existe a possibilidade da entrada com o Tallinn Card (também disponível em aplicativo) e o Museum Card.

De acordo com o site do museu, a Casa de Pedro pode ser visitada de maio a setembro, de quarta a domingo, das 11h às 18h. De outubro a abril, de quarta a sábado, das 11h às 18h e no domingo, das 11h às 16h. Segunda e terça, o museu permanece fechado.

Como chegar à Casa de Pedro, o Grande

Quem está hospedado no centro histórico de Tallinn pode pegar o tram 1 ou 3 para Kadriorg, descendo na parada Kadriorg e seguir a pé. São, aproximadamente, 15 minutos.

Final feliz

Saímos da Casa de Pedro, o Grande, com a sensação de que tínhamos conhecido mais do homem do que do imperador. Ali, a história perde um pouco do seu lado solene e, por alguns instantes, Pedro e Catarina desceram do pedestal em que a história os colocou.  Um tantinho da intimidade do casal veio à tona e eles pareceram quase pessoas comuns. Com um pouco de imaginação, pudemos ver o casal fazendo as refeições, descansando no quarto, olhando pela mesma janela o mar que Pedro tanto amava.

Este ano, a Casa de Pedro, o Grande, completa 220 anos como museu, o mais antigo de Tallinn. Talvez não seja o mais importante, mas se você gosta de entender as histórias que existem por trás dos lugares e das pessoas, eu recomendo muito a visita. Para mim, ela significou ainda mais. Conheci um pouco mais do personagem histórico que mais desperta a minha curiosidade e, de quebra, levei comigo outra história: a de uma desconhecida que, sem ter obrigação alguma, abriu justamente a porta que eu mais queria atravessar naquele dia. A gentileza daquela mulher transformou a nossa experiência e passou a fazer parte da história que guardo sobre a Casa de Pedro, o Grande.

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Comentários

Respostas de 18

  1. Que lugar interessante e histórico!!!! Muito bem conservado tb. Adorei visitar através dos seus relatos e na primeira oportunidade irei conhecer pessoalmente.

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